Homens não têm depressão “pós-parto”. O nome correto é depressão perinatal paterna.
Resumo
A expressão "depressão pós-parto paterna" está sendo substituída por depressão perinatal paterna, termo mais preciso para descrever o sofrimento psíquico que pode acometer homens durante a gestação da parceira e no 1º ano após o nascimento do bebê. Um estudo sueco com mais de 1 milhão de pais mostrou aumento dos casos de depressão e transtornos relacionados ao estresse no final desse período. Reconhecer e cuidar da saúde mental paterna fortalece a família, favorece o desenvolvimento infantil e contribui para uma amamentação mais bem-sucedida.
Marcus Renato de Carvalho
Tradução e adaptação de texto de @maximopsico
Durante muitos anos tornou-se comum encontrar notícias falando em “depressão pós-parto paterna”. A expressão ganhou espaço na mídia e até em alguns artigos científicos antigos. Mas hoje sabemos que esse termo está incorreto. O parto é um evento vivido pela mulher. O pai não “passa” pelo parto. Portanto, não faz sentido dizer que um homem apresenta depressão pós-parto.

A terminologia científica evoluiu. Atualmente, os especialistas recomendam utilizar Depressão Perinatal Paterna ou Depressão da Paternidade, expressões que descrevem muito melhor uma condição relacionada às profundas mudanças emocionais, familiares e sociais vividas durante a gestação e no 1º ano após o nascimento do bebê.
Como resume Máximo Peña, psicólogo espanhol especializado em saúde mental perinatal: “O parto pertence a elas.” Essa pequena mudança de nome representa um grande avanço na compreensão da saúde mental dos pais.
A ciência também mudou
Em 2007, Kim e Swain utilizaram a expressão Paternal Postpartum Depression. Entretanto, pesquisas posteriores passaram a adotar termos mais precisos, como Paternal Perinatal Depression (Glasser, 2019; Bruno et al., 2020; Mazza et al., 2022).
Apesar disso, ainda é comum encontrar manchetes usando a expressão antiga.
Recentemente, o jornal espanhol ABC publicou uma reportagem falando em “depressão pós-parto” nos homens. O curioso é que o próprio estudo científico citado pela reportagem não utilizava essa expressão.
O que mostrou o estudo sueco?
Pesquisadores do Instituto Karolinska acompanharam mais de 1 milhão de pais suecos, analisando quase 2 milhões de nascimentos entre 2003 e 2021. O objetivo era responder uma pergunta simples:
Quando aparecem os transtornos mentais nos pais?
Os resultados trouxeram algumas surpresas.
Durante a gravidez da parceira e nas primeiras semanas após o nascimento do bebê, os diagnósticos psiquiátricos foram até menos frequentes do que no período anterior à concepção. Mas essa aparente proteção não permaneceu por muito tempo. Ao longo do 1º ano de vida da criança, especialmente nos meses finais, ocorreu um aumento significativo dos diagnósticos de:
- depressão;
- transtornos relacionados ao estresse;
- ansiedade;
- problemas associados ao uso de álcool e outras drogas.
No caso da depressão, o aumento foi de aproximadamente 30% no final do 1º ano após o nascimento do bebê. Por que isso acontece?
A chegada de um filho transforma completamente a vida de uma família. Além das novas responsabilidades, muitos pais enfrentam:
- privação de sono;
- aumento das preocupações financeiras;
- mudanças na relação conjugal;
- maior carga de trabalho;
- medo de não corresponder às expectativas como pai;
- dificuldade para pedir ajuda.
Nem sempre esses sentimentos aparecem logo após o nascimento. Em muitos homens, eles surgem meses depois, quando a rede de apoio diminui e a rotina se torna mais exigente.
Precisamos olhar também para a saúde mental dos pais. Durante muito tempo, a atenção dos serviços de saúde concentrou-se quase exclusivamente na mãe — e isso continua sendo fundamental.
Entretanto, reconhecer que os pais também podem desenvolver sofrimento psíquico não diminui a importância da saúde mental materna. Ao contrário. Uma família emocionalmente saudável favorece o desenvolvimento infantil, fortalece o vínculo afetivo e contribui para uma amamentação mais tranquila.
A saúde mental do pai também faz parte do cuidado perinatal.
As palavras importam. Falar em Depressão Perinatal Paterna não é apenas uma questão de terminologia.
É reconhecer que o sofrimento emocional do pai está relacionado à transição para a parentalidade e pode começar ainda durante a gestação ou surgir em qualquer momento do 1º ano após o nascimento do filho do casal.
Usar o nome correto melhora a comunicação científica, evita equívocos e ajuda profissionais de saúde a identificar precocemente homens que também precisam de acolhimento e cuidado.
Porque, afinal, o parto pertence à mulher. Mas a construção da paternidade começa muito antes dele e continua muito depois.
Referência principal
Xiang N, Zhou J, Lin Y, et al. Psychiatric Disorders Among Fathers in Sweden Before, During, and After Partner Pregnancy. JAMA Network Open. 2026;9(3):e262725. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2026.2725
Referências complementares
- Kim P, Swain JE. Sad dads: paternal postpartum depression. Psychiatry. 2007.
- Glasser S. Paternal Perinatal Depression. 2019.
*Paternidad aquí y ahora: 9 lecciones para ser mejor padre que tu padre de Máximo Peña.
Nosso portal aleitamento.com sempre se preocupou com esse tema, confira esses artigos publicados:
– 10% dos HOMENS tem DEPRESSÃO PÓS PARTO
– HOMENS TAMBÉM SOFREM de DEPRESSÃO PÓS-PARTO
– DEPRESSAO PATERNA (pós parto): mais comum do que imaginamos
– PAI DEPRIMIDO => Repercussões no FILHO– Livro: Paternidade e saúde mental Psiquismo e transformações na parentalidade