Resumo
O livro "A história da IBFAN no Brasil – Um exemplo de luta da sociedade civil pelo direito de amamentar", organizado pela Dra. Marina F. Rea, resgata mais de quatro décadas de mobilização em defesa da amamentação. A obra documenta a criação da IBFAN Brasil, a construção do Código Internacional da OMS e da NBCAL, além dos desafios atuais frente ao marketing digital. Neste artigo, compartilho minha trajetória como um dos fundadores da IBFAN Brasil, relembrando a participação na elaboração da NBCAL, os embates pela regulamentação da publicidade dos ditos substitutos do leite materno e a campanha "Amamentar é um ato ecológico", realizada durante a Rio-92.
Lançado pela Editora Timo o livro “A história da IBFAN no Brasil – Um exemplo de luta da sociedade civil pelo direito de amamentar”, relata 40 anos de atuação da International Baby Food Action Network, traduzida como Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar.

Organizado pela Dra. Marina Rea, o livro vai muito além de reafirmar os benefícios do aleitamento. Trata-se de um importante registro histórico das mobilizações políticas, científicas e institucionais que tornaram possível proteger mães, crianças e famílias das práticas abusivas de marketing de fórmulas infantis, mamadeiras, bicos, chupetas e outros produtos que interferem negativamente na amamentação.
A publicação percorre a trajetória da IBFAN desde sua criação no Brasil, em 1983, até os desafios contemporâneos representados pela publicidade nas redes sociais e pelo marketing digital. Com caráter memorialístico e documental, reúne o relato da Dra. Marina — protagonista de momentos decisivos como a aprovação do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, a fundação da IBFAN Brasil e a construção da NBCAL (Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância) — além de cerca de 60 depoimentos de integrantes da rede, pertencentes a diferentes gerações e regiões do país.
Ao articular saúde pública, ativismo, incidência política e memória coletiva, a obra demonstra como a atuação persistente da sociedade civil foi determinante para transformar a proteção da amamentação em política pública, legislação e compromisso institucional.
Minha participação nessa história
Sinto-me profundamente honrado por ter sido um dos fundadores da IBFAN Brasil e por contribuir com um depoimento para esta obra.
Minha trajetória na rede começou em 1983. Como pediatra, indignava-me a forma como a indústria de alimentos infantis assediava profissionais de saúde por meio do patrocínio de congressos, cursos, viagens, publicações e brindes, influenciando práticas que frequentemente prejudicavam a amamentação.
Sob a orientação da Profa. Rea e como sanitarista no Serviço de Saúde Comunitária do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ), tive a oportunidade de organizar uma conferência do Jean-Pierre Alain sobre o Código Internacional. Posteriormente, participei do Comitê do Código do PNIAM/INAN-Ministério da Saúde, representando a ABRASCO.
Foram anos de intenso trabalho e muitos embates com representantes da indústria – a ABIA e do CONAR. Em determinados momentos, chegamos a ser ironicamente acusados de ter “geleia na cabeça” por defendermos, de forma intransigente, a regulamentação da publicidade de fórmulas infantis, alimentos para lactentes, mamadeiras e chupetas.
Após cerca de três anos de trabalho, conseguimos aprovar a primeira versão da NBCAL. Como reconhecimento desse esforço coletivo, o UNICEF Brasil patrocinou a participação de quatro integrantes do Comitê no Fórum Global dos 10 anos da IBFAN, realizado em Manila, Filipinas, em 1989. Na ocasião, apresentamos à comunidade internacional a experiência brasileira de construção dessa importante legislação de proteção ao aleitamento.
Anos depois, já como fundador e coordenador da IBFAN-Rio, tive outra grande alegria: idealizar a campanha “Amamentar é um ato ecológico”, realizada durante a Rio-92, no Parque do Flamengo, como parte das atividades da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.
Com o apoio do UNICEF e do GIFA (IBFAN Genebra), organizamos um Fórum Global e um Seminário Internacional reunindo representantes do Wellstart International, Baby Milk Action, UNICEF, especialistas e mães para discutir os impactos ambientais da produção e do consumo de fórmulas infantis e mamadeiras, reforçando uma mensagem que permanece extremamente atual: o leite materno é um recurso natural, renovável, sustentável e um patrimônio da humanidade que precisa ser protegido.
Mais de quatro décadas depois, a história mostra que nenhuma das conquistas em defesa da amamentação aconteceu por acaso. Todas foram resultado da dedicação de profissionais, pesquisadores, gestores, ativistas e mães que compreenderam que proteger a amamentação significa defender a saúde, os direitos humanos e o futuro das próximas gerações.
Sobre a organizadora
Marina Ferreira Rea é médica sanitarista, mestre e doutora em Medicina Preventiva pela USP, com pós-doutorado na Columbia University e especialização em lactação humana. Fundadora da IBFAN, atuou na OMS e teve participação decisiva na elaboração de importantes políticas de proteção ao aleitamento, entre elas a Declaração de Innocenti.
Serviço
A história da IBFAN no Brasil – Um exemplo de luta da sociedade civil pelo direito de amamentar
📖 212 páginas
💰 R$ 49,00
📚 Disponível na Editora Timo: https://editoratimo.com.br/