Resumo
O COLOSTRO começa a ser produzido desde o início da GESTAÇÃO, durante a Lactogênese I, sendo um dos primeiros sinais fisiológicos da gravidez. Sua síntese resulta da ação coordenada de diversos hormônios, especialmente prolactina, lactogênio placentário humano, progesterona, estrogênios, insulina, cortisol e hormônios tireoidianos. Embora a prolactina estimule a produção do colostro, a progesterona e os estrogênios impedem a Lactogênese II, evitando a produção abundante de leite antes do parto. Após a saída da placenta, a queda desses hormônios desencadeia a apojadura. Compreender essa fisiologia é essencial para evitar iatrogenias e fortalecer práticas baseadas em evidências no cuidado à amamentação.
O colostro é chamado de “ouro líquido”, um superalimento vivo adaptado perfeitamente para os primeiros dias de vida, atuando como um poderoso escudo imunológico e o primeiro combustível para o desenvolvimento humano. Infelizmente, há profissionais de saúde desatualizados que prescrevem fórmulas infantis ainda na maternidade com a falsa justificativa: “lactante SEM colostro”.

Essa atitude é uma Iatrogenia! A Lactogênese I inicia-se no começo da gestação com a produção do colostro. Inclusive o “aparecimento” do colostro é um dos primeiros sinais de confirmação da gravidez.
A elaboração de colostro durante a gestação é resultado de uma complexa interação hormonal. Embora muitas pessoas associem a prolactina apenas à produção de leite após o parto, a síntese do colostro já ocorre desde o início da gravidez, graças à ação orquestrada de diversos hormônios.
Os principais são:
PROLACTINA (o principal hormônio da lactogênese)
- Produzida pela hipófise anterior (adeno hipófise).
- Estimula as células alveolares da mama a sintetizarem os componentes do colostro (proteínas, lactose, lipídios e fatores imunológicos).
- Seus níveis aumentam progressivamente durante toda a gestação, chegando a ser cerca de 10 vezes maiores do que antes da gravidez.
LACTOGÊNIO PLACENTÁRIO HUMANO (hPL)
- Produzido pela placenta.
- Atua em conjunto com a prolactina promovendo o desenvolvimento funcional da glândula mamária.
- Tem importante papel na Lactogênese I, favorecendo a diferenciação secretora das células alveolares.
PROGESTERONA
- Produzida inicialmente pelo corpo lúteo e depois pela placenta.
- Estimula o crescimento dos alvéolos mamários durante a gestação.
- Apesar de favorecer o desenvolvimento mamário, inibe a Lactogênese II (a “descida do leite”), impedindo grande produção de leite antes do parto.
- Não impede, entretanto, a produção de pequenas quantidades de colostro.
ESTROGÊNIOS
- Promovem intenso crescimento dos ductos mamários.
- Potencializam a ação da prolactina no desenvolvimento da mama.
- Também participam da inibição da secreção abundante de leite durante a gravidez.
INSULINA (atenção especial deve ser dada às lactantes com Diabetes)
- Fundamental para o metabolismo das células secretoras.
- Participa da síntese de lactose, proteínas e lipídios do colostro.
CORTISOL
- Favorece a diferenciação terminal das células secretoras.
- Atua sinergicamente com a prolactina para iniciar a síntese dos componentes do colostro.
HORMÔNIOS TIREOIDIANOS – T3 = TRIIODOTIRONINA E T4 = TIROXINA (acompanhamento especial deve ser dada às lactantes com Hipotireoidismo)
- Aumentam a atividade metabólica das células mamárias.
- São importantes para uma lactogênese normal.
Hormônios que “preparam” a mama
Além dos anteriores, também participam do desenvolvimento da glândula mamária:
- Hormônio do crescimento (GH)
- IGF-1 (Fator de Crescimento semelhante à Insulina)
- Relaxina (produzido principalmente pelos ovários e pela placenta)
Esses hormônios têm maior importância na mamogênese do que propriamente na síntese do colostro.
O aspecto mais interessante da fisiologia
Durante toda a gravidez, a prolactina já estimula a produção de colostro, mas a progesterona e os estrogênios, produzidos em grandes quantidades pela placenta, bloqueiam a Lactogênese II. Assim, a mama produz apenas pequenas quantidades de colostro.
Após a dequitação (saída) da placenta, ocorre uma queda abrupta da progesterona e dos estrogênios. Como a prolactina permanece elevada, esse “freio hormonal” desaparece, desencadeando a Lactogênese II (apojadura), geralmente nas primeiras 24-48h após o parto normal e por 3-5 dias em uma cirurgia cesariana pré-marcada – sem trabalho de parto, isto é, sem ocitocina.
Em resumo
Os principais hormônios envolvidos na produção do colostro são:
- Prolactina — principal estimulador da síntese do colostro.
- Lactogênio placentário humano (hPL) — diferenciação funcional da mama.
- Progesterona — desenvolvimento alveolar, mas inibe a produção abundante de leite.
- Estrogênios — crescimento ductal e desenvolvimento mamário.
- Cortisol — maturação das células secretoras.
- Insulina — suporte metabólico para a síntese dos componentes do colostro.
- Hormônios tireoidianos — manutenção da atividade secretora.
Essa fisiologia explica por que toda gestante saudável começa a produzir colostro muito antes do nascimento do bebê. O colostro não “aparece” após o parto; ele já está presente durante a gestação. O que muda após a saída da placenta é o ambiente hormonal, permitindo a transição para a produção abundante de leite de transição e sequencialmente o leite maduro. Esse conceito é central para compreender a Lactogênese I e II, conforme descrito na literatura clássica de Neville, Hartmann, Riordan, Lawrence e na 5ª edição do livro Amamentação – Bases Científicas no capítulo 2 – Psicofisiologia da Lactação.