Por nosso querido José Eduardo Agualusa*
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Em 2026 pretendo rir mais, e melhor, com os filhos e amigos. Quero demorar-me nos abraços, vagar sem destino, exercitar a preguiça e a mansidão. Quero aprender o nome dos pássaros que pousam nas árvores do meu quintal, e o nome dessas árvores e todos os seus segredos. Quero passear com meu cachorro. Brincar com ele. Cuidar das pessoas que amo, dos bichos, das árvores e das frases.

Pretendo ler mais, descobrir novos autores e reencontrar alguns daqueles que me comoviam quando eu era jovem — Borges, García Márquez, Eça, Chatwin, Senghor, Guillén, Sophia — não para confirmar entusiasmos antigos, mas para medir a distância percorrida, descobrir quem fui e quem me tornei. Reler é importante porque os livros mudam quando nós mudamos. Alguns talvez já não me comovam. Outros, inesperadamente, deixarão uma inquietação maior. Reler um bom romance é como regressar após longos anos a um lugar onde fomos felizes, sabendo que a paisagem ainda é a mesma. Nós é que não. Nosso olhar se transformou.
Resumindo: o que quero, é afastar-me um pouco do ruído fútil, para melhor escutar o essencial.
No caso do avião pousar no mar, seguirei a interpretação de Kianda (minha filha de 7 anos) do manual de emergência. Momentos assim exigem atenção plena. Quero juntar-me à minha filha, debaixo do assento, para partilhar um chocolate, gargalhadas e aventuras. Não como quem se alheia da realidade. Antes como quem inaugura uma outra. Há momentos que não se atravessam com as ferramentas de sempre. Exigem recomeços — a coragem tranquila de inventar, no meio do oceano, um continente novo.
Que nome lhe vamos dar?
Trecho do artigo “No caso do avião pousar no mar” publicado em O Globo no dia 27/12/25
*@agualusa nasceu na cidade de Huambo, Angola, em 1960. Estudou Agronomia e Silvicultura em Lisboa. É jornalista e atualmente mora entre Luanda e Lisboa. Em parceria com a Associação Sempre Um Papo, a TV Câmara exibe quinzenalmente debates com escritores brasileiros, colocando frente a frente autor e leitor.
A imagem tenta traduzir essa ideia de esperança, presença e reinvenção do essencial — e que 2026 venha com mais riso, leituras, mansidão e bons reencontros!
Sigamos junt@s!
Marcus Renato de Carvalho e equipe do portal www.aleitamento.com