Resumo
Estudo de modelagem publicado em 2025 na *The Lancet Global Health* demonstra que ampliar a prevalência da amamentação exclusiva para 90% em 132 países de baixa e média renda poderia reduzir de forma expressiva a carga global de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). As estimativas indicam que essa estratégia seria capaz de retardar cerca de 72.300 mortes por DCNT por ano, além de evitar aproximadamente 10 milhões de casos de diabetes mellitus tipo 2 e 3,8 milhões de casos de hipertensão arterial. A maior parte das mortes retardadas estaria associada à doença isquêmica do coração e ao acidente vascular cerebral, com impacto relevante também sobre o câncer. Os benefícios são intergeracionais, afetando tanto mulheres quanto crianças, com repercussões duradouras sobre a saúde metabólica. O estudo reposiciona o aleitamento como uma intervenção custo efetiva e estruturante de saúde pública, destacando seu papel estratégico não apenas na saúde infantil, mas também na saúde das pessoas adultas e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.
“Impacto da ampliação do aleitamento materno na redução da carga global de doenças não transmissíveis em mães e crianças: uma análise de modelagem populacional para 132 países de baixa e média renda”. Impact of scaling up breastfeeding on reducing the global burden of non-communicable diseases in mothers and children: a population-based modelling analysis for 132 low-income and middle-income countries Bhandari, Divya et al. The Lancet Global Health, Volume 13, Issue 11, e1817 – e1827

Amamentação exclusiva como estratégia de prevenção de DCNT: o que o novo estudo da Lancet Global Health significa para o Brasil?
Um estudo de modelagem publicado no finalzinho de 2025 na The Lancet Global Health traz uma mudança conceitual relevante para o campo da saúde pública: o aleitamento materno exclusivo deixa de ser analisado apenas como uma intervenção de proteção à saúde infantil e passa a ser reconhecido como infraestrutura estratégica de longo prazo para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT).
Ao estimar os impactos de elevar a prevalência da amamentação exclusiva para 90% em 132 países de baixa e média renda, os autores demonstram reduções expressivas em mortalidade e morbidade por DCNT ao longo de gerações. Esses achados dialogam diretamente com desafios estruturais já conhecidos no contexto brasileiro.
O Brasil no centro do debate
O Brasil apresenta avanços históricos nas políticas de promoção, proteção e apoio ao aleitamento — como o controle do marketing não ético com a NBCAL, a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) e a ampliação da licença-maternidade para 6 meses no setor público e em parte do setor privado. Ainda assim, os dados nacionais mostram que a duração da amamentação exclusiva permanece aquém das recomendações da OMS, com forte influência de desigualdades sociais, regionais e das condições de trabalho das mulheres.
O estudo reforça que investir em aleitamento não é apenas uma política para a infância ou de equidade de gênero, mas uma estratégia estruturante para enfrentar a epidemia de DCNT, que no Brasil responde por cerca de 70% das mortes, com destaque para doenças cardiovasculares, diabetes e câncer.
Ao indicar que 43% das mortes evitadas estariam relacionadas à doença isquêmica do coração e 33% ao acidente vascular cerebral, o modelo dialoga diretamente com o perfil epidemiológico brasileiro, marcado por altas taxas de hipertensão arterial, sobrepeso, diabetes tipo 2, inclusive entre mulheres em idade reprodutiva.
Mulher, impacto intergeracional e equidade
Um dos aspectos mais relevantes do estudo é a demonstração de que 42% das mortes retardadas ocorrem entre as mulheres, reforçando que a amamentação também deveria ser um dos eixos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher.
No Brasil, onde mulheres — especialmente negras e de menor renda — concentram maior carga de DCNT e enfrentam piores condições de trabalho e acesso a direitos, esse dado é particularmente sensível.
Além disso, ao evidenciar benefícios metabólicos duradouros para crianças, o estudo fortalece o entendimento de que políticas de aleitamento são ferramentas concretas para romper ciclos intergeracionais de adoecimento, contribuindo para reduzir desigualdades em saúde ao longo do curso da vida.
Implicações para políticas públicas no Brasil
Os achados reforçam a necessidade de consolidar e atualizar políticas já existentes e de enfrentar gargalos persistentes, como:
- a insuficiente proteção à amamentação no trabalho informal;
- a qualidade desigual da atenção ao parto e nascimento com altos índices de cirurgias cesarianas;
- e a fragilização de ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento na Atenção Primária à Saúde.
- o marketing digital abusivo de produtos ultraprocessados dirigidos ao público infantil.
- que a defesa da amamentação não deveria ser uma bandeira apenas da saúde da criança, e também do Ministério das Mulheres.
Ao quantificar benefícios de longo prazo frequentemente ausentes das análises econômicas, o estudo oferece argumentos adicionais para que gestores e formuladores de políticas incorporem o aleitamento materno como investimento prioritário na prevenção de DCNT, e não como custo acessório.
📌 Por que este estudo importa para o contexto brasileiro?
✔️ Redução de DCNT: ampliação da amamentação exclusiva pode impactar diretamente doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e hipertensão — principais causas de morte no país.
✔️ Saúde da mulher: quase metade dos benefícios ocorre entre as mães, reforçando o aleitamento como política de saúde feminina.
✔️ Efeito intergeracional: melhora da saúde metabólica das crianças ao longo da vida, com potencial de reduzir desigualdades futuras.
✔️ Custo efetividade: políticas de apoio ao aleitamento são investimentos estruturantes, comparáveis a outras grandes estratégias de prevenção de DCNT.
✔️ Base para decisões políticas: o estudo fortalece o argumento técnico e econômico para priorizar o aleitamento nas agendas de saúde pública.
Próximos passos: aprofundar o debate
Os resultados deste estudo reforçam que políticas públicas de aleitamento humano são políticas de prevenção de doenças crônicas, com impacto sanitário, social e econômico de longo prazo. No entanto, transformar evidência científica em ação exige capacitação técnica, articulação intersetorial e tomada de decisão informada.
Esses temas — incluindo análise crítica de evidências, desenho, implementação e avaliação de políticas públicas de aleitamento — serão aprofundados no II Curso de Políticas Públicas de Aleitamento, que será iniciado em fevereiro, sob a Coordenação do Prof. Marcus Renato de Carvalho na plataforma do Portal @institutopartoenascimento O curso se propõe a qualificar profissionais de saúde, gestores e formuladores de políticas para atuar de forma estratégica frente aos desafios contemporâneos do aleitamento no Brasil.
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