AMAMENTAÇÃO: LEITE POSTERIOR ou LEITE do FINAL da mamada são denominações equivocadas
Resumo
As expressões “leite posterior” ou “leite do final da mamada” são equivocadas, pois sugerem que o leite mais rico em gordura só aparece ao término da sucção. O correto seria falar em leite da ejeção (ou da ocitocina) e leite da prolactina. A liberação da ocitocina, responsável pelo reflexo de ejeção, não depende apenas da sucção, mas do estado emocional e psíquico da lactante: sentir-se bem, apoiada e livre de tensões favorece esse processo. Assim, o leite mais gorduroso pode ser liberado a qualquer momento, até antes de iniciar a mamada, já que a glândula mamária é apócrina. O reflexo de descida pode gerar sinais físicos (formigamento, jato de leite), sistêmicos (calor no tórax, contrações uterinas, sede ou bem-estar) e também mudanças no bebê (sucções mais profundas, relaxamento, deglutição audível). Os reflexos da prolactina e da ocitocina são independentes, não sequenciais, complementares e essenciais para o sucesso da amamentação, que deve ser entendida como um ato psicossomático complexo.
Deveríamos substituir por LEITE da EJEÇÃO ou leite da Ocitocina. Da mesma forma: Leite anterior ou leite do início da mamada para leite fruto do estímulo da sucção ou LEITE da PROLACTINA.
Entenda: o maior estímulo para a descida do leite não é a sucção, mesmo que ela seja prolongada, 15-30 minutos.

O que libera a Ocitocina pela Neurohipófise (ou Hipófise posterior) é o desejo, é a psique, estar bem, sentir-se apoiada, livre de tensões, estresse, pressões, cansaço, dor…
Leite “gordo” existe
A Nutriz (lactante) pode ejetar seu leite só de pensar em seu bebê, só de pegá-lo no colo, ao emocionar-se, recebendo uma massagem ou um escalda pés, inclusive à distância (vendo uma foto ou ouvindo seu choro ao telefone) … Por isso, o leite mais rico em lipídeos (mais gorduroso) fruto da explosão das células alveolares (produtoras de leite) pode ocorrer a qualquer momento, mesmo antes de iniciar a mamada. Lembre-se que a glândula mamária é apócrina.
Por isso, as denominações “leite posterior” ou “leite do final da mamada” são inadequadas.
Nem todas as mulheres percebem (se dão conta) desse reflexo de descida do leite (let-down reflex), mas quando ele é sentido, os sinais e sintomas mais comuns incluem:
Sinais/Sintomas físicos na mama
- Sensação de formigamento, ardor suave ou pressão na mama, “arranhamento” que pode irradiar até a axila.
- Aumento súbito da tensão mamária.
- Vazamento (gotejamento) de leite das mamas.
- Fluxo de leite mais rápido e contínuo durante a mamada ou ordenha – o leite espirra em jato.
Sinais/Sintomas sistêmicos na lactante
- Sensação súbita de calor ou aquecimento interno no peito (tórax).
- Pequena contração uterina (mais comum nas primeiras semanas pós-parto, pela ação da ocitocina).
- Em algumas mulheres, breve sensação de sede ou náusea leve.
- Alterações emocionais rápidas, como bem-estar, relaxamento ou até uma súbita melancolia (Dysphoric Milk Ejection Reflex – D-MER).
Sinais/Sintomas no lactente
- Passa de sucções rápidas para lentas e profundas.
- Deglutição mais audível e rítmica.
- Pausas breves, como se estivesse saboreando.
- Relaxamento dos punhos e mãos (ficam abertas).
- Expressão facial mais relaxada.
- Às vezes, engasga-se ou tosse pelo fluxo rápido.
Nos cursos de Manejo Clínico da Lactação que coordeno, sempre concluo demonstrando que os reflexos da prolactina e da ocitocina são:
– independentes (pode ocorrer um e o outro não),
– não sequenciais (não ocorre um e depois o outro) e
– complementares (os dois fenômenos favorecem uma amamentação exitosa).
Leia mais em 3 artigos no www.aleitamento.com
– Descida do leite
– O LEITE POSTERIOR não é o do final da mamada
– Técnicas de relaxamento aplicadas na Lactante melhoram resultados na amamentação
Como afirmo sempre:
A amamentação é um ato psicossomático complexo – o leite não é produzido só nas mamas, mas também “na cabeça”.
Esse fenômeno da “ejeção láctea” tem as mesmas bases do orgasmo feminino, onde a ocitocina é o principal hormônio envolvido, e o estímulo “mecânico” não é o principal fator desencadeador.
No dia 15 de setembro as 18h estarei no “Fronteiras do Conhecimento em Pediatria” junto com a Flavia Shaidhauer e explicarei esse fenômeno psico-neuroendócrino, e a Dra. Flavia falará sobre Iatrogenias e Violências Neonatais que prejudicam a Amamentação. A transmissão será pelo Canal do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRJ no Youtube em @departamentodepediatriadau5903
Prof. Marcus Renato de Carvalho www.aleitamento.com