A amamentação é a melhor forma de nutrir lactentes e crianças pequenas, podendo contribuir para uma sociedade mais justa e saudável. Os profissionais de saúde estão diretamente envolvidos com a assistência da tríade pai-mãe-filho ao longo de todo ciclo gravídico puerperal, podendo interferir positivamente ou negativamente no apoio à amamentação. Para garantir as melhores práticas em aleitamento os profissionais precisam receber educação adequada ao longo da graduação e pós-graduação. O currículo ideal e a forma de oferecer este ensino ainda não está bem definida no Brasil. A Oficina de Aleitamento materno no ensino da graduação e pós-graduação teve como objetivo estimular a reflexão sobre estratégias de educação com potencial para contribuir na formação de graduandos e pós-graduandos na promoção, proteção e apoio ao aleitamento, incluindo a alimentação complementar saudável, ampliando oportunidades de aprendizagem por meio de iniciativas que articulem o ensino, a extensão e a pesquisa. Foram abordados temas relevantes relacionados às atividades de ensino já desenvolvidas ou em desenvolvimento no Brasil, temas emergentes e a inserção curricular da extensão. A oficina ocorreu no XVI Encontro Nacional de Aleitamento Materno contou com a participação de professores e profissionais de diferentes áreas da saúde e diferentes regiões do Brasil.
Discussão – Há necessidade de aperfeiçoamento contínuo em aleitamento, à semelhança de outras práticas em saúde, em função do surgimento de novas temáticas, como o “aleitamento diverso e inclusivo”, abordado na oficina. A atuação adequada dos profissionais às novas realidades ainda está em construção em todo mundo, e precisa ser incorporada às propostas educativas no Brasil. Os treinamentos ofertados aos profissionais, quando disponíveis, são inadequados ou insuficientes.
Conclusões – Através da experiência da Oficina foi possível constatar que existe a necessidade de rever o ensino oferecido aos profissionais de saúde, a fim contemplar de forma satisfatória atividades continuadas de ensino em aleitamento, utilizando metodologias pertinentes, que viabilizem a capacitação adequada dos estudantes, ao longo da graduação e da pós-graduação.

INTRODUÇÃO:
A amamentação é uma prioridade de saúde pública devido aos benéficos trazidos para a criança e para a pessoa que amamenta. Apesar dos seus benefícios inquestionáveis, as taxas de aleitamento materno ainda estão abaixo das ideais no Brasil 1. A solução para melhorar as taxas de aleitamento materno é complexa e envolve várias esferas, como o sistema de saúde, as condições de trabalho, e o suporte dado pela comunidade e pelas famílias 2. Dentro do sistema de saúde, a atuação dos profissionais é peça fundamental. Profissionais, tais como médicos, enfermeiras, nutricionistas, fonoaudiólogas, farmacêuticos, fisioterapeutas e odontólogos, necessitam receber treinamento para garantir as habilidades necessárias para realizarem aconselhamento e manejo adequado da amamentação, na maternidade e após a alta 3. Outro aspecto a se destacar é a necessidade de capacitar os profissionais para atuarem no enfrentamento ao marketing das indústrias de fórmulas infantis 4. O despreparo dos profissionais viabiliza o assédio da indústria, permitindo que esta influencie negativamente sua formação. Este treinamento deveria fazer parte dos currículos de graduação e pós-graduação, entretanto, dados indicam que os currículos dos cursos de saúde não cobrem adequadamente esta demanda e que o conhecimento dos profissionais de saúde que atuam no cenário da amamentação é deficiente 3,4,5. O apoio inadequado do profissional de saúde termina fragilizando a sua capacidade de promover e proteger a amamentação, reduzindo a probabilidade do início precoce e da sua continuidade. Não existem diretrizes claras sobre como deve ser a capacitação em amamentação para os profissionais de saúde, entretanto, as evidências indicam que os profissionais precisam ser mais bem preparados para trabalhar com aleitamento e que devem existir investimentos para melhorar os conteúdos programáticos teórico-práticos nas instituições de ensino 6.
RELATO DA OFICINA:
A Oficina teve como objetivo estimular a reflexão sobre estratégias de ensino com potencial para contribuir na formação de graduandos e pós-graduandos na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, ampliando oportunidades de aprendizagem por meio de estratégias que articulem o ensino, a extensão e a pesquisa.
A oficina ocorreu durante a programação pré-congresso do XVI Encontro Nacional de Aleitamento Materno (XVI ENAM), VI Encontro Nacional de Alimentação Complementar Saudável (VI ENACS) e o I Encuentro Latino-Americano y Caribeño de Lactancia Materna (I ELACLAM), que ocorreu de 14 a 18 de abril de 2024, em João Pessoa, Paraíba. Foi realizada no Centro Universitário – UNIESP, no dia 15 de abril, das 8h às 12h, com carga horária de quatro horas. Foi destinada aos profissionais e docentes do ensino superior. A oficina disponibilizou 50 vagas e contou com a participação de profissionais de diferentes áreas da saúde, com diversas inserções profissionais, provenientes de 11 estados do Brasil (AL, PB, RJ, BA, DF, PE, RS, PR, PA, RO, SC).
Quanto às dinâmicas utilizadas, a oficina foi iniciada com uma grande roda de conversa, onde os participantes e os facilitadores puderam se apresentar e falar um pouco sobre sua experiência com ensino de aleitamento. Os temas foram desenvolvidos por meio da exposição dialogada. Dois momentos para debate foram organizados com grande participação do grupo e foi desenvolvida uma dinâmica para elaboração de uma proposta de currículo para ensino de aleitamento materno.
A oficina foi coordenada pelo Prof. Marcus de Carvalho, que também participou como facilitador, contou ainda com quatro apresentadoras, professoras de diferentes universidades do Brasil e vinculadas a diferentes cursos da área da saúde. Foram elas, a Profa Cecília Pinton (UNICAMP), a Profa Flávia Schaidhauer (UNISUL), a Profa Kátia Brandt (UFPE), a Profa Marli Backes (UFSC) e a Profa. Patrícia Lima (UERJ).
Os temas abordados e uma breve descrição do conteúdo trabalhado são apresentados abaixo:
- Cursos de especialização em aleitamento materno – o Prof. Marcus de Carvalho apresentou o relato da história da pós-graduação em aleitamento materno, desde a primeira turma, proposta em Maringá/PR em 2010, apontando os vários antecedentes e conjunturas que justificaram essa especialização multidisciplinar. Com a experiência de coordenar 12 turmas, conversou sobre os conteúdos fundamentais e os desafios de dar continuidade à essa proposta pedagógica sem conflitos de interesses, já que foram realizadas com o setor privado. E para concluir, afirmou que as disciplinas são baseadas nos requisitos exigidos para se obter a Certificação Internacional como Consultor de Amamentação proposta pelo International Board Certified Lactation Consultant. 15
- Os desafios do ensino do aleitamento materno nas graduações de saúde – Profa Cecília Pinton apresentou um panorama do ensino sobre aleitamento materno nos cursos de graduação da área da saúde como medicina, enfermagem, nutrição, odontologia e fonoaudiologia, mostrando os desafios atuais, apresentando propostas de melhoria e discutindo sobre um possível currículo mínimo em aleitamento para os cursos. 16
- As diretrizes curriculares nacionais e as bases conceituais na formação em aleitamento materno nas profissões de saúde – Profa. Patrícia refletiu sobre os desafios para elaboração de um currículo base, comum aos diferentes cursos da área da saúde que abarque as dimensões: sociocultural, biológica, manejo, política de aleitamento materno, legislação de proteção e a alimentação complementar saudável, levantando a necessidade de se considerar na elaboração deste currículo o contexto da interdisciplinaridade, interprofissionalidade e a formação de competências cognitivas, técnicas e atitudinais (éticas) para a promoção, apoio e proteção do aleitamento.
Profa. Flávia Shaidhauer destacou a possibilidade de se incluir o ensino em aleitamento materno dentro da nova proposta de inserção curricular da extensão. E Estratégias de ensino de aleitamento fora da sala de aula abordando a necessidade de utilizar metodologias ativas para promover um aprendizado eficaz dos estudantes no campo do aleitamento materno. Transcorreu sobre os desafios do ensino de adultos e sobre os potenciais benefícios do uso de metodologias ativas, como a simulação clínica e a discussão de casos, para capacitação de profissionais atuantes na atenção de baixa e média complexidade.
Ensinando amamentação inclusiva – Profa. Kátia Brandt apresentou o tema e levantou reflexões em relação à necessidade de ensinar e aprender sobre os desafios e as oportunidades relacionadas à amamentação entre indivíduos pertencentes a grupos vulneráveis, pessoas trans, lactantes PCD – Pessoas com Deficiência e sobre o aperfeiçoamento de atitudes que favoreçam uma atuação profissional inclusiva. O objetivo da atividade foi estimular a incorporação do tema amamentação inclusiva nas atividades educativas em aleitamento humano e fornecer informações sobre recursos úteis.
Construção de um currículo mínimo comum em aleitamento materno – Profa. Patrícia Lima intermediou uma discussão visando construir uma proposta de um currículo comum em aleitamento, sob o olhar multiprofissional dos participantes. Alguns dos conteúdos propostos foram compilados e dispostos no formato nuvem de palavras utilizando o gerador de nuvem (https://classic.wordclouds.com/) conforme a Figura 1 a seguir: Imagem – Conteúdos comuns para os cursos de aleitamento materno nos cursos de graduação das áreas da saúde, segundo participantes da oficina. João Pessoa, 2024.
A nuvem de palavras produzida a partir do registro de temas que, na opinião dos participantes, deveriam compor o currículo mínimo para o ensino de aleitamento materno na graduação demonstra predomínio nas dimensões biológica e manejo clínico e algumas poucas referências às dimensões socioculturais, legislação e política de aleitamento materno. Tal análise fica evidente pela disposição das palavras na nuvem. A representação gráfica evidencia os conteúdos mais relevantes no contexto do ensino do aleitamento materno na graduação, na visão dos participantes. Os vocabulários mais frequentemente registrados foram exibidos em tamanhos maiores e mais centrais na nuvem e os com menor relevância foram dispostos de forma mais periféricos.
DISCUSSÃO:
A Oficina viabilizou a discussão de temas relevantes e atualizados sobre o ensino em aleitamento, nas perspectivas da graduação, pós-graduação e extensão. Possibilitou a troca de saberes e de experiências, ampliando o conhecimento e fortalecendo o exercício das melhores práticas no ensino em amamentação. Por meio das falas dos participantes foi reforçada a ideia da escassez de acesso ao ensino continuado em aleitamento possível. Também se destacou o interesse do grupo na idealização de um currículo unificado para os profissionais da saúde.
Há necessidade de aperfeiçoamento contínuo em aleitamento, à semelhança de outras práticas em saúde, em função do surgimento de novas temáticas, como o tema “aleitamento inclusivo”, abordado na oficina. Esta é uma temática emergente, e será abordada na campanha da Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2024 (World breastfeeding week – WBW) 7. Na descrição das ações propostas para a WBW 2024, a página da campanha ressalta a necessidade de melhorar o apoio à amamentação para reduzir as desigualdades que existem na nossa sociedade 7. A atuação adequada dos profissionais às novas realidades ainda está em construção em todo mundo, e precisa ser incorporada às propostas educativas no Brasil.
Foi abordado na Oficina a importância dos profissionais adequarem suas atitudes e linguagem frente aos novos formatos de famílias. No posicionamento da Academia de medicina do aleitamento (ABM), publicado em 2021, intitulado “Linguagem em aleitamento e alimentação infantil e gênero”, destaca-se que, os preconceitos influenciam a linguagem utilizada, o que contribui para a desigualdade de gênero e para as iniquidades na saúde 8. Esta preocupação, de adequar as atitudes dos profissionais de saúde para com as populações LGBTQIA+, está em consonância com os Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável 2030, da União Europeia e da Organização Mundial de Saúde, que coloca como meta, “acabar com a violência e a discriminação contra lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais” 9. Este movimento é importante, devendo os grupos envolvidos na promoção ao aleitamento no Brasil assumirem o compromisso de trabalhar localmente com as comunidades LGBTQIA+ e com os profissionais, para que o aleitamento seja mais inclusivo.
A fragilidade no ensino de profissionais de saúde em amamentação é um tópico a ser debatido após a vivência da Oficina. Evidências nacionais e internacionais apontam que esta fragilidade, como era de se imaginar, está associada a piores desfechos em aleitamento 3,6,10,11. Uma vez que profissionais de saúde têm atuações diretamente relacionadas ao atendimento de todas as conformações familiares, podem interferir nas práticas de aleitamento e influenciar o seu sucesso ou sua interrupção. O apoio à amamentação nem sempre é uma tarefa simples. Muitos fatores podem influenciar negativamente este processo. Se o profissional de saúde possui pouco conhecimento sobre este manejo, tem menor chance de conseguir apoiar a pessoa que amamenta, podendo inclusive contribuir para o desmame precoce 12. Os treinamentos ofertados aos profissionais de saúde, quando disponíveis, usualmente são direcionados ao início da amamentação em recém-nascidos saudáveis, deixando de qualificar o profissional para dar suporte ao longo dos dois anos ou mais, e diante da diversidade de situações em que ele pode ocorrer (por exemplo em caso de prematuridade, enfermidades ou agravos neurológicos) 3. Mesmo profissionais treinados para atuar na promoção da alimentação saudável na infância, demonstram se sentir despreparados para a tarefa, sendo destacadas afirmativas como, “falta-me habilidade”, “falta-me confiança” e “falta-me conhecimento para prestar assistência à amamentação”. Uma das participantes relatou que oferece uma disciplina eletiva de lactação no Departamento de Anatomia na Universidade em que atua como Docente.
Para além dos conteúdos relacionados aos aspectos anátomo fisiológicos da lactação e seu manejo clínico, é necessário ampliar a compreensão de que o aleitamento é multidimensional e seu desfecho irá depender das estruturas sociais como trabalho e renda, garantias de direitos, igualdade de gênero e étnico-racial e autonomia da pessoa que amamenta na escolha segura do melhor alimento para seu/sua filho(a). Nesse sentido, um currículo mínimo que seja comum aos cursos da área da saúde deve, obrigatoriamente, contemplar saberes que dialoguem com a dinâmica social, entendendo que a amamentação é natureza, mas é também cultura construída no cotidiano e que seu fortalecimento desafia os interesses das grandes corporações.
Essa Oficina foi complementada no dia 18 de abril de 2024, com a realização da Mesa Redonda intitulada: “Desafios do ensino e qualificação profissional em aleitamento materno e alimentação complementar saudável”. Coordenada pelo Prof. Marcus Renato, teve como Palestrantes: Profa. Katia Brandt, que abordou A importância de ensinar a NBCAL na Graduação e Pós-Graduação; Profa. Cecília Pinton, que apresentou o Panorama do ensino sobre aleitamento materno nas graduações da área da saúde; e Profa. Marli Backes, que expôs sobre O ensino do aleitamento materno na graduação e na pós-graduação. Esse registro se torna mais ainda importante porque foi a primeira vez que esses temas sobre Ensino foram apresentados no ENAM.
CONCLUSÕES E SUGESTÕES:
A Oficina sobre ensino de aleitamento conseguiu promover reflexões importantes entre um grupo de professores e profissionais envolvidos com a temática na vida assistencial e acadêmica. Também motivou os professores a refletirem sobre a necessidade de estruturar futuros projetos de ensino sobre o tema.
Há necessidade de elaborar propostas pedagógicas para melhorar a educação de profissionais de saúde em aleitamento, não só materno. Isto teria o potencial de contribuir, dentro do conjunto de intervenções necessárias, para melhorar o apoio à amamentação.
Os autores reforçam a necessidade da realização de atividades de ensino em aleitamento materno, com metodologias pertinentes, para capacitação adequada dos profissionais de saúde, ao longo da graduação e da pós-graduação (stricto sensu e lato sensu).
Pretendemos que o Ministério da Saúde dê continuidade a essa iniciativa, convocando o Ministério da Educação (MEC), Associação Brasileira de Educação Médica e Conselhos Federais de Enfermagem, Nutrição, Fonoaudiologia, Psicologia para um Seminário Nacional sobre Ensino de aleitamento materno. O último evento sobre esse tema foi o “Seminario Panamericano sobre Lactancia Materna para Facultades de Enfermería” realizado em junho de 1989 na Faculdade de Medicina da Universidade de Georgetown em Washington, DC. 17
Neste artigo, utilizamos os termos “mulheres” e “aleitamento materno” por brevidade e porque a maioria das pessoas que amamentam se identifica como mulher, mas reconhecemos a amamentação trans e a importância do ensino da diversidade e inclusão nesse campo.
Esperamos que no próximo ENAM/ENACS que será realizado em Campo Grande – MS nos dias 26 a 30 de abril de 2026 possamos continuar e aprofundar essas discussões sobre o Ensino de Aleitamento.
Referências:
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