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AMAMENTAÇÃO - Uma visão história, cultural, social e antropológica

Por: Noemi Damasceno

Amamentar: uma prática naturalmente cultural

 

noemidamasceno@hotmail.com

 

 

Estamos vivendo uma época, pelo menos no Brasil, onde vários profissionais (da saúde ou não), mães ou apaixonados estão se empenhando para tentar resgatar uma prática considerada por muitos como sendo (ou devendo ser) inata: a amamentação. Hoje existem vários programas de apoio/promoção/proteção visando à recuperação deste ato, mas por que recuperar, o que houve no passado?

O objetivo de apresentar este texto, que foi retirado do “Dictionnaire de la Pensée Médicale” e traduzido do francês, é para que possamos entender e refletir sobre os processos envolvidos com a amamentação ao longo dos séculos e como esta prática sofreu as influências da História e dos seus protagonistas.

 

As notas no final da tradução representam uma tentativa de traçar algum paralelo entre a história e a situação atual, brasileira ou não; assim como para esclarecer pontos relativos à cultura francesa. 

 

 

Aleitamento

 

Alimento vital para o recém-nascido, o leite é o alimento original, o alimento primordial... Secreção biológica, ele secreta, por sua vez, representações imaginárias e relações sociais que permitem refletir sobre as relações de gênero entre a mãe e o pai, relações de classes entre a mãe e a nutriz e sobre as relações de sabedoria entre a mãe e o médico.

 

 

As mães, os pais

 

As mães míticas da Antiguidade amamentam quase todas. Héra, rainha dos deuses, esposa de Zeus alimenta o universo: o seu leite derramado traceja a via láctea. Clytemnestre, Hécube, Andromaque, Jocaste deram o peito para seus filhos. Maria mãe de Cristo , que foi isenta de qualquer prova ligada à reprodução (nunca menstruou , permaneceu virgem, ignorou as dores do parto), no entanto deu o peito para seu filho divino. Somente o aleitamento escapa da maldição que, desde a queda original, pesa sobre a fisiologia feminina. O fato de Jesus mamar a sua mãe era a prova necessária de sua humanidade. Mas o leite também evoca a dedicação sem limites da mãe, a oblação do seu corpo, a relação tão intima que ela estabelece com seu filho. O leite de Maria simboliza também o seu amor incansável pelos pobres humanos. Para os místicos, ele representa a graça divina.....

 

Na Antiguidade as grandes damas gregas se limitam a dar o peito, mas todos os outros cuidados « maternos » são, na maioria das vezes, deixados para uma servente ou escrava. Inúmeros documentos epigráficos evocam a lembrança emocionada de uma infância embalada por uma nutriz querida, totalmente dedicada à criança, de idade, destacada dos homens. Euriclée, que criou sucessivamente Ulysses rei de Ithaque, e Télémaque filho de Ulysses, pertence à grande tradição homérica.

 

As Romanas nem dão o peito: uma nutriz, quase sempre escrava, é encarregada do aleitamento. O pater famílias, que dispõem de um poder quase absoluto, tem suas razões: ele quer apressar uma nova gravidez ou quer limitar a dominação exercida sobre a mãe. Por outro lado a mater famílias pode querer sua tranqüilidade. Os médicos se mantêm discretos. Um dos mais famosos Soranos (séc II apos Cristo) afirma que o leite materno é melhor para a criança do que qualquer outro alimento; porém acrescenta que a criança será mais resistente se for carregada por uma mulher e alimentada por outra (segundo o modelo de transplantio na agricultura) (1). Soranos dedica em seguido um longo capítulo à escolha da nutriz: o modelo ideal que ele descreve, pode ser encontrado em outras obras medicas até meado do século XIX.  Enfatizamos a proibição que existe em torno das relações sexuais da mulher que amamenta: o prazer dos sentidos, diz o médico, pode esfriar o afeto dado ao recém-nascido; a copulação estraga o leite ou o faz secar ao despertar o fluxo menstrual (2). Uma mulher não pode desempenhar ao mesmo tempo seus deveres de mulher e seus deveres como mãe nutriz.

Como não desconfiar da ambigüidade dos sentimentos masculinos, o “ciúme” do pai na presença do seio que nutre? (3) Inúmeras lendas levam à mesma desconfiança: àquelas que evocam o “leite do pai”; algumas contam o milagre, outras falam de castigo. O milagre torna um homem capaz de amamentar um bebê faminto. Esta foi a aventura do santo Mammant, cujo culto parece ter nascido na Capadócia no século III e se espalhou rapidamente por todo o Ocidente medieval. Vários santos irlandeses aparecerem desta forma. Até mesmo alguns pais humildes, que não eram santos, apenas muito amantes (4). No local do milagre, brotaram fontes milagrosas. Estas histórias expressam sem dúvida uma angústia, freqüente antigamente: como fazer para salvar a vida de recém-nascidos que perderam a mãe? Mas talvez pudessem estar traduzindo um desejo masculino: quando a mãe amamenta, o pai se vê excluído. Cada um dos sexos sente a falta dos atributos do outro, dizem os psicanalistas. Desde a Antiguidade até o século XIX, houve médicos e sábios para afirmar que num passado remoto, os homens, cujo peito possui mamilos, podiam amamentar como as mulheres ou até melhor do que elas. Hipocrates e Aristóteles o disseram. Darwin supõe ainda em 1871, que, em eras primitivas, os mamíferos machos puderam alimentar suas proles. Outras lendas, por exemplo, a do Pai Laitu, possuem severas advertências. Cuidado com os infiéis que sentem desejo ao olhar o seio de uma mulher que está amamentando. Não só o seio que nutre deve ser respeitado como seria derrisório e inconveniente para um homem ter mamas e leite. No século XVII os Europeus acreditavam, segundo o relato de alguns viajantes, que os homens do Novo Mundo tinham seios cheios de leite: esta confusão de sexo justificava sua submissão, pois era o sinal incontestável de sua inferioridade.

 

O Cristianismo traz novas razões de afastar o recém-nascido da sua mãe. O matrimônio cristão impõe aos esposos a fidelidade recíproca, no entanto, o tabu sobre as relações sexuais durante a amamentação ainda existe; um homem pio, que não quer cometer o adultério ou renunciar às relações conjugais, manda o seu filho para uma nutriz. A igreja não condena esta prática apesar de incentivar os esposos a preferirem a castidade. De qualquer forma é o homem que manda. Em Florença, os contratos de “nutrição” que datam do século XIV ao século XVI, e que foram conservados, são todos assinados por dois homens, o genitor e o “alimentador” (marido da ama de leite). As mulheres envolvidas, a mãe e a nutriz não aparece no contrato. Se a mãe amamenta, o primeiro dente do bebê anuncia então o desmame: o marido pode então reclamar os seus direitos.

O pai que entrega seu filho para uma nutriz fica isento de uma difícil ascese; mas ao mesmo tempo restabelece certa igualdade entre ele e sua esposa. Já que ele não pode amamentar, ele impede sua mulher de amamentar. Ela lhe deve obediência, o que a retira da responsabilidade da escolha. O homem reduz o aleitamento ao grau de função subalterna, ao entregar esta tarefa a uma mulher retribuída. Uma relação de sexo se transforma então em relação de classe.

 

 

 

As mães e as nutrizes.

 

Para as famílias de “qualidade”, entregar seu filho para uma nutriz se inscreveu primeiramente dentro do sistema de solidariedade feudal. O camponês nutre o senhor que o defende e o protege, a campesina nutre o filho do senhor, a Senhora do castelo assume funções de caridade. O pequeno serve de elo entre o castelo e o vilarejo; ele firma laços de afeto duradouros com sua nutriz (no século XVII, ele é chamada freqüentemente de “mãe teta”), assim como com seu irmão ou irmã de leite, e até mesmo com o marido da nutriz. Os etnólogos confirmam que um parentesco simbólico se constrói graças ao leite, ficando proibidos os casamentos entre aqueles que mamaram no mesmo peito (5).

O crescimento das cidades desenvolveu novos modos de vida, mais brilhantes, mais refinados. Porém as ruas estreitas estão repletas de imundices, as casas agrupadas ficam sem ar e sem sol, a água é rara. Mas, sobretudo, os “miasmas” se espalham, as epidemias são particularmente devastadoras. As pessoas ricas ou mais a vontade financeiramente, vendo os pequenos pobres morrerem, acreditam estar fazendo o certo ao mandar seus próprios filhos para o campo para respirar o ar puro e mamar o leite de uma robusta camponesa. A maioria, como Montaigne, julga a simplicidade da vida rústica bem feitora para as crianças pequenas. A entrega a uma nutriz constitui uma modalidade importante da relação campo-cidade. Porém a conseqüência é a separação: os pais vêem suas descendências apenas raramente, pois os meios de transporte são lentos e desconfortáveis; os laços iniciais não podem se desenvolver. Após o desmame, a criança é quase sempre entrega a uma governanta ou um preceptor; ou colocada em uma instituição religiosa. Só conhece seus pais de longe. As camadas superiores da sociedade do Antigo Regime parecem ter copiado a relação mãe-filho da relação pai-filho, reduzindo assim a dimensão carnal e afetiva. Os usos aristocráticos mudaram pouco ao longo do tempo. Louis de Bonald, mentor da nobreza francesa, logo após a Revolução, afirma ainda que o aleitamento seja uma função muito animal para uma dama de qualidade; ela deve aos filhos outros tipos de serviços, impondo distância e respeito.

 

As ricas famílias burguesas, fascinadas pela nobreza, também mandavam seus filhos para uma nutriz no campo. No entanto é importante assinalar que a partir do século XVI, o crescimento da Reforma introduz novos valores: nos meios huguenotes as virtudes familiares são louvadas em detrimento do orgulho nobiliário; a “família”, a “linhagem” passa a ter sua importância e os deveres “naturais” da mãe também. Isto pode ser visto através da correspondência de Louise de Coligny, casada com Guillaume d’Orange. Assim, em terra protestante a entrega do filho para uma nutriz é menos freqüente do que em terra católica. Aliás, os médicos do século XVI, sendo eles ou não a favor da Reforma, fazem com eloqüência o elogio à amamentação, apresentada como um grande prazer dos sentidos e do coração. Ambroise Paré: “Ora, existe uma simpatia das mamas para a matriz: pois fazendo cócega no bico do peito, a matriz deleita-se de algum modo e sente uma titilação agradável, pois este pedacinho de mama possui sentimento delicado por causas dos nervos que ali terminam.” Laurent Joubert:” Será que existe passa tempo igual àquele oferecido por uma criança que afaga e acaricia sua nutriz ao mamá-la; quando de uma mão ele descobre e apalpa o outro bico do peito, e da outra pega seus cabelos ou sua nuca divertindo- se”.

No final do século XVIII, as camadas sociais modestas das cidades também apelam para a “indústria da nutriz”. De fato, a primeira revolução industrial ameaça os artesões com a concorrência desleal das fábricas mecanizadas. As esposas trabalham duro ao lado do seu marido e não têm mais tempo de cuidar dos bebês. Elas amamentam o(s) primeiro(s) e entregam os seguintes para outras mulheres (6). O pouco salário não permite que elas remunerem de forma adequado a nutriz que também é pobre. Mal cuidado, o bebê tem pouca chance de sobreviver. A diferença social também existe entre as nutrizes. Em algumas regiões, as camponesas fazem da amamentação a sua profissão, passando de mãe para filha. Elas não dão apenas o leite, mas também todos os seus cuidados. Não há dúvida sobre a sua competência e dedicação. Elas são reconhecidas e estimadas como verdadeiras profissionais e as pessoas vêm às vezes de longe para consultá-las. São bem pagas pelos clientes mais ricos e guardam o melhor do leite para o pequeno que está hospedado, pois ele é a fonte de uma boa remuneração. No entanto, uma suspeita sempre ficou em relação a elas. Se uma criança de boa família apresenta, depois de crescer, certos defeitos; ele é acusado de ter sido “transformado em nutriz”! Piada reveladora......... Outras mulheres oferecem seus serviços em hospitais que acolhem crianças abandonadas ou órfãs. O salário é sempre modesto e em época de crise é derrisório. Portanto a nutriz mais pobre amamenta primeiro seu filho; amamentando o outro como pode, às vezes o vendo morrer sem muito escrúpulo. Aliás, todo mundo admite que graças ao batizado, estas crianças vão direto para o paraíso desfrutar das beatitudes eternas. Todavia, durante a Revolução Francesa, em 1793-1794, a desorganização dos hospitais priva essas pobres mulheres de qualquer retribuição e muitas delas, mesmo assim, mantiveram e criaram gratuitamente a criança que lhes tinha sido entrega, por ter se apegado a ela. Dentre das nutrizes mais pobres devemos citar as “mães solteiras”, cujo número aumenta no final do século XVIII. Obrigadas a fazer o resguardo dentro dos hospitais (cúmulo da miséria), elas são convidadas a ficar no estabelecimento para amamentar as crianças abandonadas. Aquelas que aceitam devem amamentar além do seu próprio filho duas ou três crianças, que são substituídas várias vezes até o leite acabar. Procedimento que favorece a transmissão de doenças contagiosas como a sífilis. Podemos entender que na idade das Luzes, os médicos e outros filósofos reagem contra estas práticas. Os seus discursos manifestam os progressos de uma nova cultura. Eles aprenderem, com os economistas, que a riqueza de uma nação reside, antes de tudo, no número e na qualidade dos seus habitantes. Ora, relatos alarmantes chamam atenção sobre a mortalidade infantil, que até então não inquietava muita gente. A responsabilidade para esta hecatombe de bebês é dada à “indústria de nutrizes”. Os homens da arte começam a denegrir as nutrizes mercenárias, acusadas de serem ignorantes, sujas indiferentes aos choros e ao sofrimento do bebê. Todo o desprezo da classe média para com os humildes vem à tona nestes discursos. O modelo aristocrático é denunciado com a mesmo raiva: a grande dama que nega o seu leite ao seu filho está “traindo a natureza” e demonstra uma dureza de coração detestável. A burguesia se distancia para afirmar seus próprios valores: o aleitamento materno se torna, de alguma forma, o fundamento para uma nova identidade social.

A sociedade, dizem os filósofos, está em plena decadência tanto moral quanto física. Sua regeneração passa pela educação de crianças sadias e felizes, ora a saúde da criança depende primeiramente da mãe. O corpo da mulher é a matriz do corpo social. Vários tratados espalham a idéia que a mulher, destinada “por natureza” à maternidade, deve se dedicar a este ato com exclusividade. Puberdade, casamento, gravidez, parto, aleitamento, são etapas a serem preparadas do ponto de vista da higiene e mais ainda do ponto de vista da moralização: é necessário convencer toda mãe a alimentar seu filho. Se necessário ela deverá fugir do agito, das tentações do mundo e retirar- se para o campo. “Uma vida mole e sedentária”, prescreve Rousseau. De fato o Rousseau, filho sem mãe, pai que abandonou os filhos, foi o chantre mais eloqüente do aleitamento materno. Esta função não é mais apenas um prazer como nos tempos do Ambroise Paré, é o sinal de uma solicitude que não deve ser substituída. Será que uma mulher sensível pode deixar seu filho ser alimentado por outra? Será que ela pode dividir o direito de ser mãe, ou melhor, aliená-lo, ver seu filho amar outra mulher? O contato íntimo entre a mãe e o recém-nascido cria laços afetivos que transfiguram todas as relações familiais e podem até mesmo regenerar o Estado. As doces virtudes de uma mãe dedicada aos seus pequenos irão impor um novo modelo de família e de civilização.

Ninguém desconhece o imenso sucesso de “l’Emile”. Muitas mulheres vêm ali, com emoção, o reconhecimento do seu próprio papel, uma reabilitação de sua diferença. A “moda da mama”, segundo madame de Genlis, se espalha até a corte onde as nobres damas pedem para que seus bebês sejam trazidos para que elas possam amamentar ostensivamente. Porém esta conversão não dura. O aleitamento materno não pode triunfar nos meios mais à vontade economicamente enquanto durar a proibição das relações sexuais: nem todos os maridos estão dispostos a ceder seu lugar aos recém- nascidos. Quando Eva está parindo, “Adão vai embora do paraíso”, escreve Michelet no livro L’Amour. Ainda em 1879, o Dr Garnier, autor de um livro que fez sucesso sobre o casamento, escreve que um marido apaixonado entrega seu filho para uma nutriz. No entanto, durante o século XIX, os maridos começam a praticar o coito interrompido (pelo menos na França). Mas este método contraceptivo não é seguro e as mentalidades evoluem menos rapidamente que as práticas.

A ofensiva filosófica modifica principalmente as relações de classes. As grandes damas iluminadas têm o prazer de incentivar o aleitamento materno.......... entre as mulheres do povo.

No final do século XVIII elas criam associações femininas: por exemplo, a Sociedade de caridade materna em Paris, a Junta de Damas em Madri. O objetivo é assistir as mães pobres com a condição de elas amamentarem. Estas sociedades se multiplicam no século XIX. As burguesas também aprenderam o outro lado da lição: ou seja, é necessário desconfiar das nutrizes. Daí o costume, que domina no século XIX: a nutriz vai até “o local”, ou seja, o domicílio dos pais. Porém as relações se tornam às vezes difíceis entre a madame e sua “substituta”. A jovem mãe sente ciúmes; gastou fortunas para o enxoval, o berço, a preparação da “nursery”; ela gostaria de ficar com seu bebê, aproveitar os primeiros sorrisos, mas não quer contrariar a nutriz cujo leite poderia ficar alterado. Esta, ciente destas vantagens, pode se tornar exigente e cheia de caprichos.

A nutriz “no local” é antes de tudo um corpo, bem tratado, porém domesticado.

Como ela representa um sinal externo de riqueza para seus patrões, ela está sempre bem vestida e arrumada. Dentro de casa ela é bem cuidada, seu salário é elevado e ela recebe vários presentes. Ela dorme no quarto da criança e não num quarto de empregada como os outros domésticos. È imposta a ela uma limpeza rigorosa, porém come o que quer e trabalha pouco. Dentro da existência rude da mulher pobre isto constitui um parêntese que pode deixar marcas. Porém a experiência impõe duros sacrifícios. A nutriz deixa sua família, ela se apresenta com seu próprio recém-nascido no escritório de nutrizes da cidade. Antes de ser empregada, o médico apalpa seus seios, prova seu leite, cheira seu hálito, examine seu filho (algumas mulheres até pegavam crianças emprestadas). Depois de ser empregada, ela deve mandar seu filho de volta que será levado ao vilarejo por uma “guia”. Estas guias levavam várias crianças ao mesmo tempo sem muito cuidado. Se as relações sexuais não são proibidas (o marido não é totalmente afastado) elas são fortemente desaconselhadas. Um médico falou: “...... uma nutriz só deve ser considerada como uma vaca leiteira. A partir do momento que ela perde esta qualidade, ela deve ser imediatamente mandada embora”. A sensibilidade democrática que está crescendo na França sob a III República, denuncia esta condição como sendo escandalosa e a compara com a situação da prostituta: uma mulher que está vendendo seu corpo.

 

 

As mães, os médicos

 

A ofensiva filosófica teve outro resultado: levantou um desafio para o corpo médico. Preocupado em combater a mortalidade infantil, os médicos entenderam que o primeiro problema a ser resolvido era a alimentação da primeira idade. Envolveram-se em investigações metódicas que foram o tema, durante os anos 1780, de várias publicações. As crianças achadas e acolhidas nos abrigos servem de cobaias, de campo de experimentação. Em Paris, na província, tenta-se alimentar essas crianças, com leite mais ou menos diluído, de vários animais (vaca, cabra, jumenta), e com papas de todos os tipos; são fabricados novos instrumentos para fazer os bebês absorverem estes alimentos. Na ausência de assepsia, os resultados são decepcionantes, a mortalidade continua desesperadora e o prestígio do leite humano é reforçado. No entanto o interesse e a curiosidade do corpo médico se mantém em alerta, as observações se acumulam e se diversificam. Tanto que os conhecimentos sobre as doenças infantis estão progredindo: uma primeira forma de especialização começa a surgir; os anos 1800 assistam ao nascimento das primeiras cadeiras de medicina infantil e à construção, em Paris, do primeiro hospital de crianças doentes. A alimentação dos pequenos se torna objeto de ciência e a competência das mulheres nessa área é questionada; as relações de saberes submergem, aos poucos, as relações de gêneros e as relações de classes. (7)

A revolução pasteuriana desencadeia uma nova ofensiva, desta vez decisiva. O leite animal “pasteurizado” se torna comestível para o pequeno homem. Ao mesmo tempo, mamadeiras e bicos “esterilizados” não representam mais um risco para transmissão de doenças contagiosas. Os médicos continuam a pregar o aleitamento materno, pois sabem agora que o leite da mãe é asséptico e protege o recém-nascido contra algumas infecções. Porém recomendam o uso de mamadeira em abrigos onde o leite materno é raro, e o recomendam também para as nutrizes do campo que ainda preferem guardar seu leite para seus próprios filhos.

O triunfo da mamadeira abala todos as relações sociais e as relações interpessoais que são diretamente envolvidas com o aleitamento. A nutriz vê o seu papel transformado. Antes, ela tinha que dar à luz para ter leite. Algumas delas, provavelmente, deram à luz apenas neste intuito: elas deixaram seus próprios filhos de lado para tirar proveito do leite que eles deveriam ter mamado. Os critérios de seleção das nutrizes eram baseados em características físicas e fisiológicas. A mamadeira põe fim a este investimento corporal: a idade e a fecundidade perdem sua importância. A nutriz, apesar de continuar sendo chamada assim, é agora apenas uma criadora, uma guardiã. Aquela que cria uma criança da “Assistência pública” é colocada sob o controle de um médico inspetor cuja autoridade aumenta a partir da lei Roussel (1874): ele examina o estado da casa e o bom comportamento da família. Deve ser arejada, ter sol, cômodos separados, moveis apropriados e uma limpeza rigorosa. Os critérios de seleção são deslocados.

Se uma criança frágil precisa de leite humano, não se pensa mais em fazê-la mamar um peito de uma estranha, é oferecido leite humano na mamadeira. Durante os anos 1920-1930, o recolhimento do leite de mulher é assegurado, na França por uma instituição “O Socorro branco”. A partir daí, o aleitamento no seio torna-se exclusividade da mãe e adota uma valorização afetiva: uma mãe que amamenta não é mais uma “vaca leiteira”, é uma mãe tenra que está vivendo um idílio com seu pequeno. Os médicos acabam invadindo este idílio: empreendem uma verdadeira cruzada para dirigir e governar as jovens mães. O aleitamento artificial oferece aos médicos novos meios de investigação. No tempo em que o alimento lácteo passava diretamente do corpo da mulher para o corpo da criança, a observação cientifica era quase impossível. Graças à mamadeira, os médicos podem estudar a quantidade e a qualidade do leite que uma criança precisa nas diferentes idades, assim como a melhor repartição das suas refeições. À luz de suas descobertas, eles enunciam regras decisivas. Colocar o bebê no peito assim que ele chora, está fora de questão: são costumes dignos de camponesas ignorantes. A química alimentícia impõe disciplinas: não pode dar mais de seis mamadas por dia, limitadas há quinze minutos cada, com intervalos regulares e à noite, seis a oito horas de repouso total. (8)

Alguns homens de ciência vêem o bebê como “um tubo digestivo”. Para eles o aleitamento não é mais um prazer como no tempo do Ambroise Paré, nem mesmo uma edificação moral como no tempo de Rousseau: é uma técnica de higiene, codificada, minutada, repetitiva. Eles censuram os comportamentos ancestrais e esforçam-se de combater a influência das avós que são, segundo eles, prisioneiras dos preconceitos ineptos e de superstições perigosas. Deste modo, os laços entre as mães e as filhas se distendem correndo o risco de deixar a jovem mãe sem experiência numa inquietação diária. Ocorre, portanto o divórcio entre a sabedoria das mulheres, empírica, intuitiva, tradicional, e a sabedoria dos homens, racional, objetiva, inovadora. Esta desqualifica àquela

È importante notar novamente que com o afastamento da avó uma nova participação torna-se possível: a do pai. O senhor, pode agora alimentar seu filho. No entanto, os médicos nunca falam dele.  Não basta o “cuidado paterno” ser possível, nem mesmo o homem ter este desejo, è preciso que os costumes e as mentalidades autorizem os novos comportamentos. O consenso, a este respeito, só aparece no último terço do século XX.

Mesmo antes da intervenção dos pais, a alimentação dos bebês tinha se tornado uma questão de homens, homens da arte. Só faltava convencer as mulheres. Nos meios mais elevados economicamente, é o médico de família que assume esta tarefa. Com condescendência ele assume a educação das jovens mães; seus conselhos são bem recebidos, quase sempre seguidos. Nas famílias, o médico torna-se uma figura indispensável, alguns até falam do “segundo pai da criança”. Para atingir os meios mais modestos, novas instituições aparecem. Antes do final do século XIX, abrem-se, nos hospitais, consultas gratuitas para recém-nascidos. Na França, obras privadas, as “Gotas de leite”, distribuem leite asséptico: algumas senhoras de caridades preparam cestas contendo, em cada uma delas, seis mamadeiras de leite pasteurizado e dosado segundo a idade da criança. As mulheres trabalhadoras podem vir a cada manhã para pegar a alimentação que oferece todas as garantias; se elas forem indigentes, o leite é gratuito. Elas são firmemente convidadas a trazer seus filhos para serem examinados a cada semana. Para cada criança um livrete é criado e mantido em dia: peso, tamanho, dieta, vacinas, doenças (9). Durante a guerra de 1914-1918, as mulheres são empregadas em fábricas de armamentos, são as “munitionnettes”. Uma lei de agosto de 1917 obriga as empresas que empregam mais de cem mulheres a abrirem salas de aleitamento. As operárias, que têm a reputação de serem sujas e ignorantes, devem se submeter, na entrada, a um ritual de assepsia, que para elas é incompreensível e humilhante; é exigido delas submissão e docilidade. A luta contra a mortalidade infantil passa antes das liberdades individuais; torna possível a medicação das camadas sociais mais modestas, que antigamente não podiam arcar com as consultas.

Logo, a alimentação artificial dos bebês enriquece a indústria farmacêutica. A preparação dos leites, ainda há pouco, chamados de “maternizado”, das farinhas para todas as idades é acompanhada de múltiplas fabricações: mamadeiras e bicos cada vez mais aperfeiçoados, esterilizadores, balanças e outras bugigangas. Os benefícios da “indústria alimentícia” mudam de mão e de dimensão: agora enriquecem as multinacionais. Ao mesmo tempo em que desenvolvem um imenso marketing para os seus produtos, nunca perdem a oportunidade de lembrar que o leite materno é preferível a qualquer outro!(10) Por isso, dizem, as mulheres “tem poder de escolha”. Na realidade, nas clínicas de parto, tenta-se influenciá-las segundo a moda ou os costumes da casa. Quando voltam para casa, muitas vezes estão sozinhas, ansiosas, sem saber com quem falar. Novos encontros parecem, no entanto, estar surgindo como para lembrar as antigas solidariedades familiares ou entre vizinhos. Associações como “Solidarilait” ou a “Leche League” propõem às jovens mãe-nutrizes informações e locais de diálogos. Outra complicação aparece com o surgimento do feminismo. No inicio dos anos 1970 mulheres “fálicas” desqualificam qualquer forma de “cuidado materno”; segundo elas, amamentar é vergonhoso e ridículo. Algumas injunções “politicamente corretas” ligam a honra de uma mulher e o desabrochar do seu filho com sua independência precoce. Salve as creches, mesmo as “selvagens”! Desde então, a corrente mudou. A ultra-sonografia revelou as “competências” do feto, suas aptidões para comunicar com sua mãe e seu meio. Os etólogos analisam as primeiras formas de “amarras” entre o recém-nascido e a pessoa que o alimenta. Portanto podemos assistir ao renascimento da celebração lírica da “díade”, da “simbiose” que une a mãe à criança. As mídias têm a pretensão de revelar para as mães o que elas sempre souberam: “o bebê é uma pessoa!”. Esta efusão reabilita o seio materno. Além da higiene, além da moral, e até mesmo além do prazer, o aleitamento torna-se uma relação entre dois seres: relação específica, íntima, privilegiada, etapa essencial na vida de uma mulher e na vida de uma criança.

Porém ao mesmo tempo, o número de mulheres que trabalham fora de casa não para de crescer. A sua função de nutriz incomoda o patrão e compromete sua carreira. O que faz com que a profissão de nutriz ainda possui vários anos de vida. (11) Aquelas que hoje exercem esta função, são chamadas de “assistentes maternais” e desejam um verdadeiro estatuto profissional com formação inicial e contínua, remuneração fixada por lei, direitos às férias e à aposentadoria, associações e sindicatos. Por que não? Aparece então um problema: a “verdadeira mãe”, ela não recebe até hoje nenhuma formação programada, nem inicial e nem contínua, a sua “perícia” não é reconhecida; será que ela poderá dar diretrizes para uma assistente oficialmente qualificada? Bela ocasião para repensar as relações entre natureza e cultura!”(12)         

                                                           

Notas:

 

1-2 : È interessante notar como já  nesta época haviam crendices profissionais. Hoje já se sabe que a relação sexual não altera o leite, porém outras crendices ainda estão em voga.

 

3: Creio que seja difícil encontrarmos hoje um pai que tenha a clareza em relação aos seus próprios sentimentos e ou frustrações diante da mulher que amamenta; mas podemos ver que os autores do texto já levantam esta suspeita. O « ciúmes » seria, portanto um marco histórico da relação mãe-filho-pai?

 

4: Vale ressaltar o caso deste pai no Sri-Lanka que teria sido encontrado, nestes últimos anos, amamentando sua filha após ter perdido sua esposa.

 

 

5: Saiu uma matéria em fevereiro de 2008 sobre o caso de um saudita que estaria sendo obrigado a se separar da esposa, pois ambos tinham sido amamentados pela mesma mulher e segundo a lei muçulmana, o casamento entre “irmãos de leite” é proibido. Será que estamos tão longe da época feudal?

 

6: Já no final do século XVIII aparece como causa de desmame, à volta ao trabalho. Até hoje esta é uma causa que gera dificuldades e polêmicas para nossa sociedade. Este ano a licença maternidade foi ampliada para 6 meses (com certas restrições), mas ainda há muitas mulheres que não podem beneficiar desta licença como, por exemplo, àquelas que trabalham no mercado informal.

 

7-10: È interessante vermos como e quando a mamadeira (parecida com as mamadeiras de hoje) e o uso de leite de vaca surgiram. (todavia, parece que foram encontrados utensílios romanos que serviam de mamadeira já naquele tempo). Podemos ver que eles são decorrentes da curiosidade e ou preocupação dos médicos, aliadas ao avanço cientifico da pasteurização, para finalmente se tornarem (e até hoje são) objetos de grandes lucros para multinacionais bem pouco preocupadas com o bem estar e a saúde materno-infantil.

È importante assinalar que o Brasil possui, desde 1988, uma norma que controla a comercialização de alimentos para lactentes.

 

8: Podemos desconfiar de que as diretrizes, que até hoje são passadas para as mulheres que amamentam, (número e tempo de mamada) foram criadas pelos médicos não por uma preocupação a respeito do bem estar materno-infantil e sim para simplificar e normatizar suas próprias pesquisas. A criança é “um tubo digestivo” e assim será tratado e analisado.

 

9: Até hoje na França, existe este livrete, que sofreu transformação, e é chamado de “Carnet de Santé”. È entrego a todas as mães (ou responsável legal) gratuitamente. Nele consta toda informação relativa à gestação, ao parto e à saúde da criança e adolescente até depois dos 20 anos assim como antecedentes familiares. Algumas consultas e vacinas são obrigatórias sob pena de perder alguns direitos que são concedidos à família.

 

11: Na França, sempre se utilizou o termo “nourrice” (nutriz) para a profissão de babá e mesmo que a palavra esteja cedendo espaço para o termo “assistente maternelle”, que é mais recente, ainda é utilizado.

 

12: Creio que esta frase conclusiva dispensa qualquer comentário e constitui um ótimo ponto para a reflexão de todos, envolvidos ou não com esta questão. Repensar a dualidade entre natureza e cultura é um tema que sempre foi discutido pelos intelectuais e filósofos e constitui um assunto que rege nossos comportamentos.

 

 

 

 

Conclusão:

 

Se, podemos supor que na origem da humanidade, o ato de amamentar era instintivo, inato, entendemos, após a leitura deste texto, que há séculos que esta prática é condicionada pela cultura. Isto é, a amamentação foi, é, e acredito, sempre será dependente de múltiplos fatores.

Amamentar não é apenas fornecer ao lactente um alimento vital, é também o reflexo das nossas relações inter e intrapessoais.

Vimos, ao longo do texto, o quão importante o papel do homem, seja ele pai, médico ou marido; o papel da religião. Vimos também que os comportamentos relacionados à amamentação sofreram evoluções ao longo da historia, evoluções que não são lineares nem universais. A cada época, suas crendices, seus mitos e tabus, a cada época suas causas de desmame precoce. Alguns, e algumas atravessam os séculos, outros e outras são apenas substituídos por novos; dependendo da época, dos avanços (ou retrocessos) da medicina e das questões sócio-culturais. Percebemos também que muitas das vezes amamentar ou não era imposto às mulheres e com isso devemos refletir sobre nosso modo de agir ainda hoje.

O que nos resta, além dos esforços que alguns colocam nesta iniciativa, é torcer para que consigamos, não só resgatar, mas também fazer perdurar o máximo possível esta prática sempre considerando e respeitando àqueles que não compartilham desta filosofia.

 

Bibliografia:

 

KNIBIEHLER, Y. Allaitement. Dictionnaire de la pensée médicale. Paris: Puf, p.29, 2004.

 

CARVALHO, M.R., TAMEZ, R.N. Amamentação- Bases cientificas, 2ª edição, Ed. Guanabara Koogan, RJ, 2005.

 


Última atualização: 2/2/2011

 

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